Quebra do comportamento do mercado accionario, crise e consequências

Durante regressões utilizando-se o modelo de 5 fatores de Fama e French (2015), com e sem variáveis dummies, com carteiras com retornos igualmente ponderados (Ri-Rf) e carteiras ponderadas por valor de mercado (Ri-Rf_w) encontrou-se evidencia de perda de eficiencia no mercado de ações brasileiro no periodo recente. Com um comportamento direcionado para a especulação que teve efeitos na economia real desde 2013-2014.

A Tabela 1 mostra o desvio padrão das carteiras em dois períodos de oito anos. Os resultados mostram que os retornos conseguem ter um ajuste maior num período de tempo mais longo (2001-2016) que no periodo recente (2009-2016). Além disso, a utilização de retornos ponderados (empresas maiores possuem maior peso) melhora a identificação de um comportamento inusitado que pode ser identificado com a adição de variáveis dummies.

Tabela 1 – Desvios padrão das diferentes carteiras regredidas.

Carteiras

Low Neutral High (L+N+H)/3
Small

Ri-Rf

Ri_w-Rf Ri-Rf Ri_w-Rf Ri-Rf Ri_w-Rf Ri-Rf

Ri_w-Rf

2001-2008

0.0967

0.0152 0.0841 0.0099 0.1265 0.0179 0.0884

0.0123

2009-2016

0.0726

0.0043 0.0760 0.0036 0.1055 0.0057 0.0788

0.0042

Big

Ri-Rf

Ri_w-Rf Ri-Rf Ri_w-Rf Ri-Rf Ri_w-Rf Ri-Rf

Ri_w-Rf

2001-2008

0.0832

0.0132 0.0818 0.0091 0.0960 0.0220 0.0800

0.0130

2009-2016

0.0471 0.0031 0.0498 0.0028 0.0719 0.0048 0.0523

0.0031

Fonte: Primária.

Em seguida, a Tabela 2 mostra o desvio padrão dos fatores de Fama e French (2015) nos mesmos períodos que a anterior:

Tabela 2 – Desvio padrão dos fatores.

Período

Rm-Rf SMB HML RMW CMA

2001-2008

0.0799 0.0491 0.0833 0.0929

0.0785

2009-2016 0.0613 0.0417 0.0469 0.0635

0.0508

Fonte: Primaria

Como pode ser observado nas Tabelas 1 e 2 os desvios padrão tanto das carteiras como dos fatores são em todos as situações maiores no período 2001-2008 que em 2009-2016 o que representa um tipo de quebra no padrão de comportamento dos rendimentos entre estes períodos.

Quando analisados os resultados das regressões para um período mais longo (2001-2016), é possível detectar que os fatores conseguem ter melhor ajuste aos modelos de Fama e French. Além disso, quando utilizadas variáveis dummies em regressões com retornos ponderados, considerado o peso de empresas com maior valor de mercado, por tanto mais negociadas, estas dummies apresentam resultados positivos no período 2011-2014.

Existem indícios da existência de uma quebra estrutural no período recente, com menos volatilidade nos retornos das carteiras e com desvio padrão menor nos valores dos fatores de FF, o que dificulta a correta aplicação do modelo. Por conseguinte, o fato dos ativos financeiros estar descolados dos fundamentos afeta a correta precificação e, assim, a eficiência de mercado. Isto pode se dever em parte como mencionado por Serrano e Summa (2015) a uma mudança de política econômica, de ajuste e orientada aos mercados, estabelecida pelo Estado no período 2011-2014; à instabilidade política e socioeconômica que assola o Brasil desde 2015; e/ou à migração desde um comportamento mais racional de precificação de ativos financeiros para um comportamento, menos fundamentalista, ambicioso de ganhos rápidos e especulativo no sentido de antecipar a psicologia do mercado. Nesta situação, investidores precificam menos o valor real das empresas, representado aqui pela variação de seus ativos no fator CMA e, em consequência, o patrimônio líquido que representará também a relação entre o valor contábil e o valor de mercado no fator HML. Outro elemento a considerar que influencia as variáveis HML e CMA é o endividamento das empresas no exterior, que possuíam até esse momento expetativas positivas em relação à demanda futura. Como divulgado pelo Insper (2014) o endividamento cresceu durante o período.

Dividas lastreadas em dólares que tiveram um aumento de 150% no valor da moeda estrangeira no período que vai desde dezembro de 2007 (USD/BRL 1,77) até dezembro de 2014 (USD/BRL 2,66) tiveram logo um aumento em 125% em apenas dois anos, custando o dólar americano em dezembro de 2016 o valor de 3,33 reais. Sem considerar que durante parte de 2015 e 2016 o dólar chegou a ultrapassar os quatro reais.

A incapacidade de prever eventos extremos dos empresários; a ponderação maior dada às notícias do Fed; certa irresponsabilidade na obtenção de créditos no exterior negligenciando a variação cambial e o apoio ao processo antidemocrático de desestabilização apoiado pelos médios de comunicação iniciando em 2013-2014 acabou tendo um efeito inesperado para a variação dos ativos e passivos das empresas, o que é refletido na quebra estrutural apresentada nas carteiras das maiores e mais negociadas empresas.

O fato de estas anomalias existir demostra que não sempre se cumpre a hipótese de mercado eficiente. Ainda assim, se entende que a eficiência nos mercados é algo que deve ser defendido para evitar a formação de bolhas financeiras que possam, logo, atingir a economia real como acontece no Brasil.

 

INDICADORES SOCIAIS E ECONÔMICOS

Índice de condições econômicas atuais (ICEA) – 2002-2017

Este indicador avalia o grau de confiança que a população tem na situação geral do país e nas condições presentes e futuras de sua familia.

Desemprego, total (% da população ativa total) (estimação modelado OIT) – 2002-2017

Fonte: Organización Internacional del Trabajo, base de datos de Indicadores principales sobre el mercado laboral.

 

‘Reforma trabalhista aumentará a desigualdade no Brasil’, diz economista:

http://www.redebrasilatual.com.br/economia/2017/11/reforma-trabalhista-aumentara-a-desigualdade-no-brasil

‘Desigualdade no Brasil é escolha política’, diz economista:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/09/1921236-desigualdade-no-brasil-e-escolha-politica-diz-economista.shtml

Semelhante ao exposto pelo economista Thomas Piketty, no artigo anterior se menciona como a falta de taxação sobre heranças e impostos progressivos sobre a renda favorece ao topo da piramide enquanto prejudica os mais pobres. O país nunca irá atingir o estagio de pais rico e desenvolvido enquanto o Estado não melhore a distribuição de renda e as condições sociais da população, fornecendo serviços públicos de qualidade. Principalmente no referente a educação, saúde e uma legislação mais justa. Estes argumentos estão baseados nos dados da revista The Economist que se refere à relação entre o produto, Gross Domestic Product (GDP), dos países e os indicadores de bem-estar social, Social Progress Index (SPI).

Measuring a progressive society:

http://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2016/06/daily-chart-20?fsrc=scn/fb/te/bl/ed/measuringaprogressivesociety?

Concluí-se assim que, as especulações do mercado financeiro e a intromissão do setor privado nas politicas econômicas do Estado provocou perda de eficiência nos mercados financeiros; aumentou a especulação financeira; gerou perda de confiança; e, efeitos catastróficos na economia real atingindo o consumo das famílias, aumentando a desigualdade entre ricos e pobres, aumentando o desemprego, estuprando a democracia e dizimando os direitos do povo brasileiro. A situação atual parece não dar indícios de melhoras e ainda se prevê um cenário pior ante a possível ascensão ao poder de Jair Bolsonaro em 2018. Se espera isto não acontecer.

REFERÊNCIAS

FAMA, E. F.; FRENCH, K. R. A five-factor asset pricing model. Journal of Financial Economics, v. 116, n. 1, p. 1–22, 2015.

INSPER. Endividamento externo do setor privado cresceu no País |. Disponível em: <https://www.insper.edu.br/noticias/endividamento-externo-do-setor-privado-cresceu-no-pais/>. Acesso em: 31 out. 2017.

SERRANO, F.; SUMMA, R. Demanda agregada e a desaceleração do crescimento econômico brasileiro de 2011 a 2014. Center for economic and policy research, p. 1–42, 2015.

 

 

@edwalves Financial adviser, entrepreneur, economist. #economics #BRICS #technology #nature #development #value #investing

Tagged with: , , ,

Leave a Reply