O café no Brasil e a influência da crise de 1929

Introdução:

Neste trabalho irão ser estudadas em primeiro lugar as causas e conseqüências da crise de 1929 e o segundo elemento analítico será a crise do café no Brasil, suas causas e relação com a crise, e suas conseqüências.

O método de análise será critico dedutivo com a premissa de inserir ao leitor no contexto histórico em que aconteceram os fatos.

 

Desenvolvimento:

Crise de 1929:

Logo da primeira guerra mundial EUA emergiu como grande potência econômica e industrial e se transformou assim, num país com grande riqueza ao qual muitos outros países deviam dinheiro. Com os juros, os empréstimos feitos para os aliados durante a guerra chegaram quase a 12 bilhões de dólares.

Grande fortuna se fez presente; e o novo padrão de consumo americano incluía, maquinas de lavar roupa, rádio, cinema, o famoso carro Ford modelo T nascido da nova linha de produção em massa, entre outros desejos de consumo financiados pelo credito fácil das poderosas instituições financeiras.

A década de 1920 foi um momento de grande prosperidade para os Estados Unidos, logo no final da década quase todo mundo já estava endividado.

Umas das coisas que os americanos mais gostavam na época era a emoção da especulação no mercado de ações; empolgados com os grandes ganhos já que o preço não parava de subir. Também o crédito instantâneo fazia com que qualquer um pudesse investir em ações pela primeira vez; e podia comprar na margem, a crédito com empréstimo de seu corretor.

O crédito instantâneo e o fato do governo se negar a regular a bolsa de valores construiu as bases para o desastre iminente.

“Os fundos disponibilizados pelo Federal Reserve foram investidos em ações ordinárias ou (e mais importante) ficaram disponíveis para ajudar a financiar a aquisição de ações ordinárias por terceiros. Assim, dispondo de fundos, as pessoas correram para o mercado acionário.” (GALBRAITH, 2010, p. 28).

Em questões abordadas no seu livro Galbraith menciona como causas as práticas especulativas, elevação dos preços de ações e de imóveis, que atraiu compradores e aumentou ainda mais os preços e as expectativas otimistas, até culminar na crise de 1929. Seria a ilusão dos estadunidenses, que pensavam que a especulação de títulos mobiliários traria dinheiro fácil para todos, uma das causas da crise? Seria o desejo de ficarem ricos rapidamente e com pouco esforço a causa da bolha imobiliária?

“… um processo básico e recorrente. Surge com preços em elevação, seja das ações, seja dos imóveis, seja das obras de arte ou de qualquer outra coisa. Esse aumento atrai atenção e compradores, o que produz o efeito adicional de preços ainda mais elevados. Expectativas são assim justificadas pela própria atividade que faz os preços subirem. O processo continua; o otimismo, com seu efeito de mercado, é a ordem do dia. Os preços sobem ainda mais. Então, por razões que serão interminavelmente debatidas, chega o fim. A queda é sempre mais súbita que o aumento; um balão que tenha sido furado não se desinfla de modo regular.” (GALBRAITH, 2010, p. 16).

Os países europeus começaram a ter dificuldades para pagar suas dívidas com os EUA. Enquanto isso, na década do egocentrismo e a confiança cega, em Wall Street continuavam a comprar ações acreditando que nada poderia dar errado.

“Em 1929, havia boas razões, ou ao menos estratégicas, para essa visão, e é fácil compreender por que ela se tornou doutrina dominante. Em Wall Street, como em toda parte durante aquele ano, poucas pessoas queriam uma depressão grave. Em Wall Street, como em toda parte, há uma fé profunda no poder da magia. Quando o mercado caiu, muitos cidadãos em Wall Street logo sentiram o perigo real, indicando que a renda e o emprego – a prosperidade em geral – seriam adversamente afetados. Era preciso impedir que isso acontecesse. A magia preventiva requeria que um importante número de pessoas repetisse com o máximo de firmeza que isso não aconteceria. E foi o que fizeram. Explicaram como o mercado de valores era apenas a espuma e que a substância real da vida econômica residia na produção, no emprego e nos gastos, os quais, todos, continuariam não sendo afetados. Certeza disso ninguém tinha. Como um instrumento da política econômica, a magia não permite dúvidas nem escrúpulos menores.” (GALBRAITH, 2010, pp. 93-94).

Uma quinta-feira, num 24 de outubro de 1929, sem aviso prévio, a bolha estourou e a festa acabou. Todos tentaram vender as ações que tenham; o “efeito manada” contagiou o pânico. No final daquele dia o mercado de ações tenha perdido 4 bilhões de dólares, e logo piorou. Quem tenha vendido na margem estava endividado com os bancos, os quais começaram a exigir o pagamento dos empréstimos e uma única forma de pagar era vendendo suas ações a qualquer preço. Corretores e especuladores venderam mais de 16 milhões em um dia, o que foi conhecido como a terça-feira negra; um prejuízo de 14 bilhões de dólares.

Ante a seguintes expectativas negativas e corrida bancaria os bancos se vieram obrigados a pedir falência. As empresas ficaram sem credito e foram forçadas a fechar deixando milhares de trabalhadores desempregados.

O grande crash traumatizo a nação americana e fez que milhares de empresas quebraram, milhões de pessoas perderam seus empregos.

Bancos americanos tentaram cobrar suas dívidas de guerra no exterior. E o Estado tentou salvar eles enquanto ignorava a situação de miséria da população. Aparentava não enxergar os problemas e convocava economistas ortodoxos para tentar convencer o povo por meio dos meios de comunicação de que a situação iria melhorar.

Do auge da prosperidade em 1929 até 1932 nove mil bancos quebraram ou fecharam as portas; 6000 empresas faliram, o PIB foi reduzido de 80 bilhões de dólares a 40 bilhões em 1932; o desemprego aumento de 3,2% para 25%; a violência cresceu nas cidades americanas, grupos de cidadãos atacaram autoridades locais por falta de assistência do governo, a população fiz manifestações contra o pagamento de aluguel e passeatas contra a fome, mas foram os veteranos de guerra quem fizeram os protestos mais violentos se enfrentando com o exército americano e tomando o capitólio.

No livro 1929: A Grande Crise, John Galbraith discorre sobre o papel do Estado durante os anos do boom especulativo na década de 1920 e apresenta críticas aos funcionários públicos que tinham a responsabilidade de tentar diminuir a “bolha” da especulação: o presidente dos Estados Unidos, o secretário do Tesouro, o Conselho do Federal Reserve em Washington e o presidente e os diretores do banco Federal Reserve de Nova Iorque.

“A regulamentação da atividade econômica sem dúvida é o mais deselegante e o mais ingrato dos encargos públicos. Quase todos se opõem a ela por princípio; sua justificativa sempre se baseia na defesa pouco agradável do mal menor. A regulamentação se origina de ásperos debates no Congresso, no qual os interesses desnudos dos grupos de pressão envolvem e expõem, revelações que se avizinham do obsceno. A promulgação e a aplicação de normas se fazem por uma burocracia esmagadora que é criticada sem cessar. Em épocas recentes, tornou-se obrigatório para os reguladores em todas as oportunidades confessarem sua incompetência, que, em qualquer caso é evidente demais.” (GALBRAITH, 2010, p. 41).

Depois de 13 anos de domínio republicano Franklin Delano Roosvelt foi empossado presidente dos EUA, logo declarando:

“Deve haver uma supervisão rígida de todas as transações bancarias, de credito e de investimentos. Temos que pôr um fim à especulação com o dinheiro dos outros”

O programa de assistência de Roosvelt: National RecoveryAdministration era a estratégia de longo prazo para diminuir o sofrimento causado pela depressão, tomando para si a responsabilidade pelo bem-estar do povo e criando novos empregos.

Embora não fosse propriamente um projeto coerente de reformas políticas, econômicas e sociais, as políticas implementadas por Franklin D. Roosevelt em resposta à Grande Depressão lançaram as bases do estado keynesiano e do poder sindical nos Estados Unidos. O New Deal pode ser dividido em quatro dimensões: 1) às reformas econômicas e à regulação de setores da economia, 2) a que se ocupou das medidas emergenciais, 3) a que diz respeito às transformações culturais, e 4) uma nova pactuação política entre o Estado e fatores sociais, o que formou a chamada coalizão do New Deal.

  • O governo investiu US$ 4 bilhões na construção de usinas hidrelétricas, barragens, pontes, hospitais, escolas, aeroportos etc. Tais obras geraram milhões de novos empregos;
  • A destruição dos estoques de gêneros agrícolas, como algodão, trigo e milho, a fim de conter a queda de seus preços;
  • O controle sobre os preços e a produção, para evitar a superprodução na agricultura e na indústria; a diminuição da jornada de trabalho, com o objetivo de abrir novos postos. Além disso, fixou-se o salário mínimo, criaram-se o seguro-desemprego e o seguro-aposentadoria (para os maiores de 65 anos).

 

Estatísticas dos Estados Unidos para o período em estudo:

 

 

Crise do café no Brasil

A relevância do café para a Economia do Brasil no século XIX é indiscutível, seu maior apogeu deu-se entre 1830 e 1929. Uma vez que sua produção em escala comercial se inicia com a presença da Família Real Portuguesa no Brasil, e vai até o final de 1920. Este período histórico é o Ciclo Sistêmico de Acumulação Britânico, porém coincidindo com a passagem dele para o norte-americano.

“O estudo da formação e distribuição espacial da cadeia mercantil do café certamente permitirá lançar novas luzes sobre um período fundamental na historia brasileira, caracterizado pela formação do estado nacional, pela modernização econômica e suas conseqüências em termos políticos, sociais e mesmo culturais. Um aspecto da vida brasileira para o qual o estudo da cadeia mercantil mundial do café contribuirá é a observação mais clara da inserção nacional nos processos políticos e econômicos mundiais. Pois os nódulos fundamentais da cadeia mercantil do café ou eram controlados por agentes britânicos -o comercio e o financiamento, por exemplo- ou se localizavam no exterior, como é o caso do consumo, realizado majoritariamente nos EUA.” (VIEIRA, 2012, p. 274)

Por se encontrar os pontos chaves nos centros hegemônicos, Brasil não dispunha de autonomia para tomar decisões sobre o café. Decisões estratégicas sobre preços, estoques, quantidade a ser produzida entre outras eram tomadas externamente. A política de valorização do café foi associada aos interesses de empresas e banqueiros ingleses e o conseqüente endividamento.

“… a economia cafeeira nas suas diferentes fases, desde a produção até o consumo será largamente explorada pelo capitalismo internacional. Através do financiamento da produção, do comercio, da exportação, ele retirará uma primeira parcela de lucros, pois embora estas operações se realizam no próprio pais, elas se acham diretamente ou indiretamente em suas mãos, seja por bancos ou firmas comerciais da mesma procedência nacional, seja por casas brasileiras a eles ligadas. Depois que o café é embarcado, a exploração do capital estrangeiro se torna naturalmente maior e mais fácil, aí vem o transporte, a distribuição nos países consumidores, a industrialização do produto (torração, moagem e outras manipulações). É todo um grande aparelhamento comercial e industrial que o café brasileiro vai alimentar; e os lucros de todos esses processos sucessivos (em que entra boa parte da mais-valia brasileira) canalizam-se para a remuneração dos capitais internacionais neles investidos.” (PRADO JÚNIOR, 1994, p. 272)

Assim, foi difícil identificar quanto da riqueza produzida do café efetivamente permanecia no país.

Brasil estabelecia uma posição de pais consumidor de manufaturados e produtor de produtos primários, os quais sofriam a grande pressão de grandes empresas exportadoras as quais exerciam a capacidade de comprimir os preços dos produtos.

No período existia trabalho intensivo nos cafezais, no inicio de escravos africanos, depois, deles e imigrantes; depois, de assalariados; e por fim de imigrantes e migrantes. Mantendo-se assim as condições necessárias para a produção em larga escala, garantindo a exploração de um lado e a acumulação do outro.

Para o efeito da elaboração da cadeia mercantil do café é indispensável à alocação de um ou mais elos mercantis que atendiam o fluxo de subsistência do complexo cafeeiro. Conseqüentemente ha de se relatar que esse comercio interno exigia tropas de muares e navegação de cabotagem para sua efetivação, portanto outro elemento a ser incluído na referida cadeia mercantil.

Antes do consumo final havia ainda a fase da torrefaço e moagem, que não era feita no Brasil. Primeiramente a torra era feita pelo próprio consumidor, mas com o desenvolvimento de grandes empresas torrefadoras e da qualidade dos embalagens, houve mais facilidade para o consumo; com a venda do produto pronto para o consumo este aumento consideravelmente.

Logo de passar por um complexo sistema de comercialização; em 1917, cria-se a Bolsa de Café de Santos, que passa a operar também com negócios futuros. Também a instalação de “Armazéns gerais” (1903), para uso dos fazendeiros que não quiserem fazer negócios a traves dos comissários e preferissem tratar diretamente com os exportadores ou seus corretores, trouxe uma inovação.

O mercado mundial tendeu a crescer ininterruptamente a partir de 1920, e as exportações aumentaram em grandes proporções, deixando a economia dependente desta monocultura.

A chamada “política de valorização de preços” teve algumas edições. Tais medidas tentavam sobrepor o preço de mercado, a través de estoques reguladores que garantissem o preço considerado adequado. No período de 1906 a 1910 tinham sido retirados do mercado livre 8.500.000 sacas e em 1924 adota-se um largo esquema de valorização permanente, do qual o resultado se conhece pelos 40% dos estoques queimados ou jogados ao mar na crise de 1929.

A “valorização” representa o apogeu do período até agora estudado é a grande burguesia cafeeira, proprietária dos bancos e das casas de exportação, quem pode reservar-se uma parte cada vez mais importante do lucro realizado a partir da produção do café.

“Na região do café, uma grande parte, senão o próprio núcleo da burguesia industrial nascente encontra a suas origens da emigração européia.” (SILVA, 1986, p. 85)

A reprodução do capital cafeeiro e as formas de subordinação da economia brasileira levam ao nascimento e ao desenvolvimento da indústria que, por sua vez, está em contradição com a própria reprodução do capital cafeeiro e as formas de subordinação da economia brasileira.

 

Conclusões:

A crise econômica originada em Wall Street, que pouco depois se espalhou pelo mundo, provocou uma retração nos lucros dos fazendeiros que exportavam café; com a crise muitos trabalhadores do campo mudaram-se para a cidade. Em São Paulo a indústria ganhou força com a política de substituição de importações, a criação de empresas estatais naquela época foi decisiva para o processo de industrialização nacional.

Um dos motivos pelos quais o Brasil foi prejudicado foi a grande dependência dos EUA nos quesitos financeiros, assim, quando estourou a bolha em 1929 junto o fizeram os mercados futuros de café, seu preço e sua demanda. Desta forma foi o inicio do fim do ciclo do café e da falta de regulação das atividades econômicas financeiras; dando lugar a uma economia com maior participação do Estado, mas preocupada com o desenvolvimento e a pesar de criticada, difamada e esquecida algumas vezes sempre volta a ser lembrada nas situações de desespero em que se faz necessária para suavizar os ciclos econômicos próprios da acumulação do capital.

 

Bibliografia:

GALBRAITH, John Kenneth. 1929: a grande crise. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.

GAZIER, Bernard. A Crise de 1929. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

SILVA, Sérgio. Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil. SP: Ed. Alfa-Omega, 8ª. Ed., 1995, 114 p.

VIEIRA, Rosângela de Lima. A Cadeia mercantil do café produzido no Brasil entre 1830 e 1929. In.: VIEIRA. Pedro A. (Org.). O Brasil e o capitalismo histórico: passado e presente na análise dos Sistemas-Mundo. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012, p. 265-296.

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